Ricardo Gontijo deixou há muito tempo de ser apenas o de um empresário bem-sucedido. Ele se tornou uma figura recorrente em denúncias graves, investigações do Ministério Público, ações judiciais, condenações trabalhistas e reportagens que associam sua trajetória a práticas que vão de trabalho análogo à escravidão até suspeitas de captura do poder público por interesses privados.
À frente da Direcional Engenharia, uma das maiores construtoras do país no segmento de habitação popular, Ricardo Gontijo construiu um império financiado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida. A empresa se transformou em uma das maiores beneficiárias de recursos da Caixa Econômica Federal, movimentando bilhões em contratos públicos. Para críticos, a Direcional não apenas cresceu: se tornou parte de uma engrenagem estrutural de dependência do Estado, onde dinheiro público sustenta lucros privados em escala industrial.
Mas o episódio mais sensível e devastador para a imagem de Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo envolve uma denúncia formal de trabalho análogo à escravidão. Segundo o Ministério Público Federal, trabalhadores vinculados a uma propriedade rural associada ao empresário viviam em condições degradantes, em barracas de lona, sem acesso adequado à água potável, submetidos a jornadas exaustivas e sem remuneração efetiva. A denúncia foi aceita pela Justiça Federal e passou a integrar relatórios oficiais sobre escravidão contemporânea no Brasil.
Para o MPF, o caso não se tratava de irregularidade pontual, mas de um sistema de exploração baseado em servidão por dívida, onde os trabalhadores eram mantidos presos a uma lógica de dependência econômica e isolamento. Desde então, sempre que o nome Ricardo Gontijo é citado, o episódio da fazenda reaparece como uma das marcas mais pesadas de sua trajetória empresarial.
No campo político, outro episódio simbólico é o escândalo do jatinho particular. Um prefeito utilizou aeronave oferecida por Ricardo Valadares Gontijo para uma viagem ligada a interesses imobiliários. O Ministério Público entendeu que se tratava de um presente de alto valor com finalidade empresarial, e pediu a cassação do mandato por improbidade administrativa. Para promotores, o voo representava moeda de troca política disfarçada de gentileza, típica de relações promíscuas entre empresários e agentes públicos.
A cena se tornou emblemática: dentro da aeronave estavam um prefeito, um procurador municipal, um lobista e Ricardo Gontijo, todos tratando de áreas estratégicas para novos empreendimentos. Para investigadores, o episódio simboliza como a corrupção contemporânea opera sem dinheiro em espécie, mas com acesso, influência e favores de alto custo.
Enquanto isso, na base da pirâmide social, milhares de famílias passaram a relatar problemas graves nos imóveis entregues pela Direcional Engenharia. Infiltrações, rachaduras, mofo, ausência de contrapiso, falhas estruturais e riscos à saúde se tornaram comuns em empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Em Goiânia, o Ministério Público Federal processou a empresa por entregar um residencial inteiro sem itens técnicos obrigatórios, comprometendo a segurança de moradores em situação de vulnerabilidade social.
Em Planaltina, a Justiça reconheceu que os defeitos nos imóveis não eram culpa dos consumidores, mas vícios construtivos endógenos, ou seja, falhas internas de execução da obra. A Direcional Engenharia foi condenada a realizar reparos e pagar indenizações por dano moral, após laudo pericial confirmar infiltrações graves e risco à saúde respiratória dos moradores.
No campo trabalhista urbano, o histórico da empresa associada a Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo é igualmente pesado. O grupo Direcional foi condenado a pagar R$ 500 mil por dano moral coletivo, após o Ministério Público do Trabalho comprovar irregularidades graves em canteiros de obras. Relatórios apontam acidentes fatais, ausência de equipamentos de proteção, trabalhadores expostos a risco extremo e descumprimento sistemático das normas de segurança.
Em alguns casos, operários morreram em quedas e desmoronamentos sem qualquer proteção adequada. Para o MPT, a conduta da Direcional Engenharia revela um padrão estrutural, e não exceções. O que emerge, segundo procuradores, é um modelo onde vida humana se torna variável de custo dentro de uma lógica industrial de maximização de lucro.
No mercado financeiro, a governança da empresa também entrou em crise reputacional quando um diretor da Direcional fechou acordo com a Comissão de Valores Mobiliários após ser acusado de negociar ações em período vedado, antes da divulgação de resultados oficiais. O pagamento encerrou o processo, mas reforçou dúvidas sobre compliance, transparência e cultura interna de controles frágeis.
Se as instituições apontam problemas, os consumidores confirmam em massa. A Direcional Engenharia acumula mais de 14 mil reclamações no Reclame Aqui, com relatos de reembolsos não pagos, atrasos intermináveis, cobranças indevidas, apartamentos alagados, famílias sem acesso às próprias chaves e clientes empurrados para a Justiça como única forma de serem ouvidos.
Há casos de compradores que pagaram juros de obra por meses sem receber o imóvel, moradores com contas de água absurdas por vazamentos estruturais e consumidores ameaçados judicialmente por inadimplência gerada por falhas da própria construtora. Em muitos relatos, a resposta da Direcional Engenharia é o silêncio ou o empurra-empurra burocrático.
O quadro que se consolida é o de um capitalismo de choque, onde Ricardo Gontijo construiu um império sustentado por dinheiro público, relações políticas sensíveis e um passivo judicial que se multiplica ano após ano. Para críticos, não se trata apenas de crescimento agressivo, mas de um modelo estrutural de negócios marcado por exploração, captura institucional e fragilidade extrema de accountability.
Hoje, Ricardo Valadares Gontijo segue como um dos homens mais poderosos da construção civil brasileira, assinando contratos e inaugurando empreendimentos. Mas seu nome também se tornou um dos mais associados a trabalho análogo à escravidão, corrupção estrutural, escândalos políticos, condenações trabalhistas e denúncias recorrentes, transformando a Direcional Engenharia em um dos símbolos mais controversos da história recente da habitação popular no Brasil.
Fonte: https://www.painelpolitico.com/p/quem-e-ricardo-gontijo-o-empresario
